Ela, a tela

O dedo no botão, às 7 hs da manhã, pressionava-o apreensivo. Televisão ligada. Notícias. Chamada 1: Assassinato. Chamada 2: Chacina. Chamada 3: Suicídio. Chamada 4: Latrocínio. Chamada 5: Homicídio doloso (“quando não há a intenção de matar”). Mudança de canal. Chamada 1: Denúncias de corrupção. Chamada 2: Tiroteio em túnel. Chamada 3:  Desvio de verba. Chamada 4: (imagem de uma bunda cobrindo toda a tela) Celebridades clareiam pêlos ao invés de depilar. O conectorzinho do cérebro, mutilado, se conteve e mandou o recado: DESLIGAR.

Cena da vida moderna

Ele bem que tentava. Mas o mar nunca estava para peixe. O ar rarefeito era sinônimo de pressa. E o mambembe, de repente, passou a correr em direção à fresta. Sabe-se lá porque, quando e como. O dia mostrava-se plausivelmente belo. E as pernas tortas, um tanto arredias, tornaram-se então os membros mais coordenados do rapaz. Que na intermitência dos paralelepípedos saltava como numa sinfonia de Ravel. Era mais forte do que ele. Nada nem ninguém o impediria. O odor era inconfundível. E ele enfim atingira o escopo. “Me dá um pão, seu moço”.

Desafogo

Despida, ela colhia as sete flores. Sem dores. Livre de mentiras e açoitamentos. Corria na pureza luzidia. Sentia-se.  Sem tremeluzir.  Alcançava o porvir numa preguiça gostosa. Sem pressa. Sem peça. Inteira. Sem o ‘se’. Reconhecia-se-reencontrava-se-reabastecia-se.  Da seiva do eu. Do sono dos puros. Do sopro diurno. Do sol nocivo dos sinceros. Gozava de desafogo. Sem foguear. Sim. Encontrara-se-a-si-e-a-seu-limiar. Sem hipérboles.

Tempo

Um minuto! Ela suplicava. Um minuto pro mundo. Um minuto pro tempo.  Um minuto de pausa. Um minuto de alento. E voltava, sem opção, aos uns minutos de tormento.

Sampa gente

Na dança, o cumba. Na rumba, elas mostram. Os corpos. Sedentos. Matreiros. Jogados. Com cheiros. Rodas. Calças. Jeitos. Lacônicas….

Homens sentados na beira das praças retraem as mãos premendo os dedos com as unhas roídas pretas azuis e os pés calçados da crostra urbana vinda do asfalto entupido do lixo do rico da bituca de cigarro da lata de cerveja do xixi da criança do cocô do gato.

Mundos de sonhos-vivos-pesadelos dos esquecidos do Parque Dom Pedro.

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